terça-feira, 26 de abril de 2011

sonoro epitáfio

No canto da sala
eu ensaio, mudo
um halo de sons
presos na garganta

então você surge
nota dissonante:
traz o pensamento

e faz do dia noite
do ar, esteira de deitar
a cama palco de encenar

aqui jaz um músico
que jamais compôs
que jamais te tocou
nem parou de sonhar.

sábado, 7 de agosto de 2010

t_URBI_lhão

Vejo joannas avenidas
viadutos e angélicas, colossais
da alta cidade esburacada
nem vejo mais o cais


rimo coisa com outra
rimo em pé com tanto faz
rimo berimbau com lotado
os passageiros são iguais


Sujo todo meu carro
sujo meus pés de barro
nesse mar de promessas
da cidade às avessas.


Sem um tostão furado
rimo caruru e quiabo
nesse mês de setembro
quando? nem me lembro!


E assim termino a minha prosa
de manhã a rima de tarde a glosa
Fecho o livro empoeirado
e mando assim o meu recado.

terça-feira, 30 de junho de 2009

Escrito no buzu - ou - viajando na história das línguas românicas

Sérgio Bezerra


Se tem ladeira e tem buraco
Tem latim vulgar e contato
Entre povos vários, invasões diversas
O léxico mudou, parece às inversas
Pois que a língua latina pronta ficou
Ao fim da idade média e as guerras
Espalharam os sermos e suas sequelas
Romanos cortaram cabeças
Mudaram as regras todas,
As nações ficaram lerdas,
cada uma na sua:
Minha pátria, minha língua
- Que nada!
Germanos, godos, vândalos
Vandalizaram a linguagem
Vieram os árabes, barbarizando a massa
Tarik subiu a colina
Desceu a espada na Ibéria
Já tão bagunçada, nunca foi séria
Comendo quibe e batendo açoite
Açafrão, açougue, açucena, açude, açúcar
Alecrim, alfândega, alfazema, Almodóvar, álcool!!!!
Harém, haxixe, papagaio, sultão,
tambor, xadrez, xarope, xaveco, xerife,
xeque-mate!
Alah!
Meu bom Alah!!!...
Até Jardim tem em nossa terra.
Português tem duas falas
Cada uma de um lado
Como irmãos separados
O oceano no meio, sopa de letras
Jogos de linguagem,
Jogos medievais, barroco,
Português arcaico, romeno, aragonês, catalão
Provençal, sardo, ocitano, espanhol, tudo isso
Foi verdade, cada um por si
O latim veio por todos
Venham a mim as criancinhas
A igreja deu ajuda, rezou, cantou
A peleja foi dura, muita gente queimou.
Azeite, azulejo, chafariz, oxalá: tudo árabe
Fecha essa matraca (diz alguém)
Matraca também é árabe!!!
Matraca??? gira a catraca,
fecha o livro e desce.

Cada povo tem a língua que merece!!!

sexta-feira, 19 de junho de 2009

No buzu II - ou - curtas intervocálicas

Sérgio Bezerra

Para todo acento: vogal
Para todo sinal: sentido
Para todo poema bandido
Há um cotovelo dolorido.

Para sol que nasce: nascente
Para todo elo: corrente
Para todo olho: transplante
Para todo verso: repente.

Para a palavra proferida
uma síncope escondida
uma variante subtraída
pela fonética rendida.

para todo osso: cachorro
para toda cabeça: gorro
quase tudo que reluz é ouro
se calar minha voz, morro!

segunda-feira, 25 de maio de 2009

T P M (Tendência a Murros e Pontapés)

Sérgio Bezerra

Amorzinho, vem cá, vai ali
amorzinho, vai encher o de outro
amorzinho, não sou de ferro
amorzinho, não tá no gibi


amorzinho, me escuta
amorzinho, me atura
amorzinho, me bajula
amorzinho, engole esse sapo!



amorzinho, vai acordar
amorzinho, vem dormir
amorzinho, tá zangado?
amorzinho... o caralho!!

cada macaco no seu galho...

Sérgio Bezerra

Já dizia Riachão
nas ladeiras da Bahia
eu vi o umbigão da baleia.
O sonho do malandro é mulher
cama, luz apagada e barriga cheia!
Assim é a vida, Bahia, amiga minha
ladeirosa e escorregadia...
Eu vi o umbigão da baleia
na descida da praça,
naquela lua meia!

segunda-feira, 11 de maio de 2009

cada coisa tem sua hora

Sérgio Bezerra
hora de comer
e de vomitar
hora de crer
e de desacreditar
hora de subir
e de descer
hora de parir
hora de gemer
hora de vender
e de comprar
hora de sair
e de, quem sabe,
voltar.